sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

"Parei de buscar explicações", por Lais Souza



Já se foram quatro anos desde o meu acidente em Salt Lake City, nos Estados Unidos. No começo, perguntei-me muito sobre o que aconteceu. Questionava Deus: por que não me deixou os movimentos de uma mão, ou de um dedo sequer? Fiquei me massacrando. Mas não adiantou, não encontrei a saída, era pior, uma perda de tempo. O começo foi bem complicado, porque saí de casa aos 10 anos para viver o sonho de atleta, e já não tinha tanta convivência com meus familiares. De repente volto para Ribeirão Preto, sem movimento nenhum, necessitando de tudo e precisando de uma adaptação para mim e para toda a família. Eu sempre fui muito independente, tinha minha casa, pagava minhas contas, tinha meus relacionamentos. E de repente eu me vi de fralda, com a minha mãe, como se tivesse voltado a ser criança.
Parei de buscar explicações, e muita coisa mudou em minha vida. Meu jeito de pensar, de ver as coisas, a relação com minha família. Hoje a pior coisa que poderia me acontecer seria perder meus pais. Mil vezes pior que o meu acidente. Minha mãe é uma guerreira, demonstra uma força que não sei se eu teria. Acho que estou bem mais sensível do que na época em que andava. Quando vejo uma criança passando fome ou problemas parecidos com o meu, isso me sensibiliza muito. Todos os dias me contam histórias nas redes sociais e percebo que às vezes meu problema nem é tão grande. Mas quase não choro, acho isso ruim. Cresci na seleção de ginástica com treinadores rigorosos, sofri muito para treinar, com a canela machucada, pé quebrado, tive de aprender a lidar com isso, adquiri um lado meio “cavalo”.
Ando mais séria também, em relação a tudo, à saúde, aos problemas. Acho que estou me sentindo velha, tenho quase 30 anos! Mas tem dias em que estou como antes, brincalhona. Às vezes estou forte, às vezes estou “franga”, depende, mais paciente, mas às vezes estouro, inevitavelmente. Não sou de ficar gritando muito ou tomar decisões loucas, a não ser que já estejam na minha cabeça há muito tempo. Às vezes acordo e acho que vou me mexer normalmente. Isso frustra… Quando converso, tenho a nítida sensação de que estou gesticulando. Pode ser que em algum momento eu me surpreenda e realmente me mexa. 
Preencho meu tempo com meu trabalho, faço palestras e eventos, minha principal fonte de renda. A fisioterapia constante me faz sentir atleta, porque eu sou atleta ainda. Canso do mesmo jeito, faço um esforço parecido, sinto dor muscular, aquela sensação de vitória quando consigo completar um exercício novo ou quando apresento sensibilidade em algum lugar. Depois do acidente, achei que não fosse mais me surpreender, sentir adrenalina, mas a vida me mostrou que isso ainda é possível. Tenho sensibilidade embaixo do pé, na barriga, nas costas e em alguns pontos da mão. O músculo do meu bíceps também vibra muito nos exercícios, isso é novo. Eu me sinto mais forte, mas vou devagar.
Consigo viver normalmente dentro das minhas limitações. Para ser sincera, o que mais sinto falta é de sexo. Sempre fui uma pessoa muito física, estava sempre em movimento, liberando adrenalina. Hoje não consigo fazer mais nada, é muito difícil. Aliás, minha sexualidade foi muito comentada, não chegou a me incomodar, porque a minha família, que realmente importa, já sabia. Nunca escondi nada da minha mãe. Logo contei para ela, expliquei o que eu estava sentindo e fomos nos adaptando. Quando saiu a notícia (de que tinha uma namorada), eu pensei: Caramba, quebrei o pescoço, estou quase morrendo, e as pessoas estão preocupadas se eu gosto de homem ou mulher, em pleno século XXI?
Agora moro em Ribeirão Preto, com minha mãe, num pequeno apartamento, e minha rotina começa depois das 9h30. Não gosto de acordar cedo, cuido da minha higiene, tomo banho, almoço, depois treino, vou à faculdade (de psicologia) e tento sair com minhas amigas, uma delas a Daiane dos Santos (também ginasta), com quem tenho muito contato. Nessa fase, quando vejo uma prova de ginástica, não sinto tristeza, mas saudade. Hoje olho para o acidente de uma forma mais serena - nunca voltei ao local, mas pretendo, seria legal ver neve de novo. E eu teria a chance de esquiar, sentadinha, num trenó adaptado. Espero que não tenha nenhum trauma.
Depoimento colhido por Silvio Nascimento e Luiz Castro 
Foto Felipe Cotrim/VEJA.com

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Editorial do Globo: A maior derrota de Lula

Sentença do TRF-4 rivaliza com o fracasso do petista nas eleições de 89, 94 e 98


A confirmação da condenação de Lula em segunda instância, por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, não encerra a carreira política do ex-presidente, porém é um revés de gigantesca magnitude. A unanimidade dos três votos, muito técnicos, dados pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), na aceitação do veredicto do juiz Sergio Moro, de Curitiba, da Lava-Jato, ainda permite pelo menos um recurso. Mas, por certamente retirá-lo das eleições de outubro, por meio da Lei da Ficha Limpa, e mantê-lo inelegível por oito anos — Lula só recupera os direitos políticos ao completar 81 anos —, a sentença é a maior derrota da vida do ex-presidente, rivalizando com o fracasso nas disputas pela Presidência da República com Fernando Collor (1989), em segundo turno, e as duas perdas, em primeiro, para FH (94 e 98).

A condenação de Porto Alegre é mais aguda por não ser política, mas se tratar de punição criminal por corrupção e lavagem de dinheiro, algo nunca antes ocorrido com um ex-presidente da República. Embora a militância bata bumbos para amplificar a tese sectária de que seu líder foi vítima de um tribunal de exceção — finge-se não saber o que é um verdadeiro tribunal de exceção —, a realidade é bem outra. Luiz Inácio Lula da Silva teve o direito de defesa respeitado, como tem acontecido nos demais processos na Lava-Jato. Mas o sectarismo rejeita qualquer argumento objetivo, e até formulou a tese autoritária de que o julgamento só seria legítimo se absolvesse Lula.

Também em Porto Alegre, a defesa do ex-presidente, feita pelo advogado Cristiano Zanin, manteve o tom da politização: todo o processo é repleto de erros, cheio de evidências de que não importam provas, com a intenção deliberada de condenar o grande líder popular, para retirá-lo das urnas de outubro. Ou seja, a defesa de Lula continua a ser feita para animar a militância, não com a finalidade de convencer juízes. Parece considerar inevitável a condenação final de Lula neste e em outros processos, e por isso trata de ajudar na construção da imagem de um mártir das causas populares, conveniente para quem não sabe fazer outra coisa na vida a não ser política.

Lula teve a condenação confirmada, por votos dos três desembargadores do TRF-4, cheios de argumentos objetivos e provas que desmontam posições da defesa — a partir das mais de 400 páginas do detalhado voto do relator João Pedro Gebran Neto, o primeiro a sancionar o veredicto de Sergio Moro. Houve até acréscimo da pena de Lula, por Gebran, de nove anos e meio para 12 anos e um mês de prisão, sob o correto argumento de que o cargo de Lula é um agravante. Proposta aceita pelos dois outros juízes.

No relatório, são citados os entendimentos entre o presidente da OAS, Léo Pinheiro, Lula e Marisa Letícia, diretamente ou por meio de representantes do PT, como João Vaccari Neto, também ainda preso, em torno do imóvel do Guarujá. Da mesma forma que aconteceu nas transações de corrupção com a Odebrecht, o trânsito do dinheiro sujo era acompanhado por uma conta corrente, na qual, no caso da OAS, o custo do tríplex e das obras de melhorias no imóvel foi debitado de propinas geradas em negócios da empreiteira com a Petrobras, de óbvio conhecimento de Lula e companheiros. O relator reservou um capítulo do voto para descrever como, por exemplo, Paulo Roberto Costa, “Paulinho”, foi colocado na diretoria da Petrobras por interferência direta de Lula, para atuar, com outros, no esquema de geração de propinas em contratos com empreiteiras amigas.

À medida que este processo tramitava — há outros, como o do sítio de Atibaia —, era fermentada na militância, também fora do país, a falsa constatação, alardeada pelo próprio Lula, de que ele era processado sem provas. Balela. Se forem analisados os autos sem as lentes do viés político e ideológico, encontra-se o passo a passo de como um singelo apartamento na orla do Guarujá, construído e comercializado por meio de uma cooperativa de bancários (Bancoop), foi adquirido em nome de Marisa Letícia, mulher de Lula, e, depois, com o marido no poder, terminou metamorfoseado no tríplex do prédio.

As provas podem ser consultadas. Mas a militância não se interessa por elas, prefere manter a fé no líder carismático. Existe documento rasurado que atesta a tentativa de encobrir o upgrade do imóvel, de um apartamento simples para um tríplex. Também há registros de imagens de Lula em visita ao novo imóvel, na companhia do presidente da empreiteira OAS, Léo Pinheiro, ainda preso, que se incumbiu de concluir o prédio depois que a Bancoop quebrou e não finalizou a obra. Por que tanta benemerência a Lula? Votos dos três desembargadores de Porto Alegre explicam em detalhes. Além de Gebran, Leandro Paulsen, revisor do relatório de João Pedro Gebran, e Victor Laus.

Em 2010, O GLOBO noticiou que a família Lula da Silva tinha um imóvel no prédio, fato confirmado pela Presidência. Houve visitas da família ao tríplex do prédio Solaris, ex-Mar Cantábrico, na época da Bancoop. Obras foram contratadas para atender ao desejo dos futuros moradores, mesmo que, formalmente, o imóvel continuasse, na escritura, sendo da OAS. Por quê? O próprio Léo Pinheiro depôs que a dissimulação foi pedida em nome de Lula. Três andares requeriam um elevador interno, e assim foi feito. O imóvel também recebeu uma nova e moderna cozinha.

Outros calvários jurídicos aguardam Lula. Um deles, o sítio de Atibaia, também próximo à cidade de São Paulo, mas no interior. Talvez uma herança do tempo de militância sindical na juventude, Lula não gosta de aparecer em escrituras de imóveis que usufrui. Caso deste sítio, em que costumava passar fins de semana e que terminou preparado por empreiteiras — Odebrecht e OAS —, para abrigar o ex-presidente nos momentos de lazer. Piscina, adega etc. Este é outro processo, mas há uma conexão dele com o do tríplex que condenou o ex-presidente em segunda instância: as cozinhas dos dois imóveis foram compradas pela OAS no mesmo fornecedor. Não faltam mesmo provas.

Do julgamento no TRF-4, fica a frase do procurador Maurício Gotardo Gerum, representante, no julgamento, do Ministério Público Federal:

— Lamentavelmente, Lula se corrompeu.


https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial-maior-derrota-de-lula-22325712 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

88 anos de Fernandona, por Michelle Licory

16.10.2017  /  13:46

Fernanda Montenegro: “tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele. Mas não faço plástica!”



Nesta segunda-feira, Fernanda Montenegro completa 88 anos, em plena atividade, prestes a estrear mais uma novela, “O Outro Lado do Paraíso”. “Nunca pensei em chegar a essa idade. Quando eu era jovem, 88 parecia ser igual a ter mil anos de vida”. A veterana, ícone maior entre os atores brasileiros, mostrou toda sua compreensão com os mais inexperientes ao dizer que não dá conselhos – “Deus me livre” – e que “o jovem ainda não passou pela prova de fogo, não tem bagagem, então não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender. É natural”. Isso e muito, muito mais:
“Não tenho perfil para cadeira de balanço”
Para começar com a pergunta mais óbvia: será que Fernanda pensa em aposentadoria? “A gente até pode achar que não aguenta, mas vai fazer o que? Essa rotina te exige acordar e cantar. Você acorda e canta. Não tenho perfil para cadeira de balanço. Essa vida de artista é tão intensa que a gente vicia no estresse. Faz parte. Não é como um bancário, que pede a Deus sua aposentadoria, ou pra que chegue o sábado e domingo pra poder ficar em casa. A não ser que ele tenha uma vocação louca para aquilo e termine dono do banco… Todo dia o ator tem que mostrar sua criação, sua criatividade. É diferente”.
“Isso é filosofia barata, mas real”
Por ser vista como uma referência, deve ser boa de conselhos… “Não sou de dar conselhos na minha vida. Se me pedem, dou. Mas não fico em cima das pessoas ensinando a viver. Deus me livre. Cada um tem seu caminho. Se houver uma conversa… Mas sou incapaz de ficar: ‘olha, não vá fazer isso, ou você saber o que vai acontecer…’ Deixa a pessoa viver a experiência que quer, sem conselhos”. Perguntamos se ela se arrepende de algo. “Acho que vivi a minha vida plenamente. Não me arrependo de nada. Tudo vai acumulando conhecimento. É frase feita, mas é verdade. Mesmo as coisas mais duras e desagradáveis e dolorosas com o passar do tempo você vê que ter dobrado aquela esquina, quando você pensava ‘puxa, perdi a minha vida’, depois percebe que se não tivesse dobrado não estava agora dobrando essa outra esquina que está te salvando. Isso é filosofia barata, mas real”.
“Tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele”
Qual é a vaidade de Fernanda Montenegro? “Minha vaidade é cuidar da minha saúde sem me privar das coisas que quero comer. Mas já comi mais do que como hoje. A vida inteira jantei muito porque a gente fazia teatro e saía depois de três atos – peças enormes – morrendo de fome. Mas a idade te põe à prova. Fora isso, tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele. Mas não faço plástica”.
“Chega uma hora que não tem papel”
Por quê? “Uma coisa bonita no ator de teatro – televisão é outra zona – é que você vai envelhecendo e tendo papeis para sua idade. O problema da TV é que o ator quanto mais se opera, mais ele fica deslocado do seu tempo de vida, da sua estrutura física, por mais ginástica que faça, compreende? Chega uma hora que não tem papel: não é jovem pra fazer personagem jovem, nem é meia-idade porque tirou todas as possíveis rugas e papos que poderia ter. E também nunca vai ter idade de chegar ao extremo número de anos… Não tem cara para idade nenhuma. A pessoa vai ficando indefinida”.
“Não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender”
Para toda regra, exceção. “Essa nova novela tem um monte de ator veterano [Nathalia Timberg, Lima Duarte, Marieta Severo, Juca de Oliveira, Laura Cardoso] em papeis ótimos, complexos, difíceis. E nós todos vamos tentar fazer o melhor da gente. O jovem ainda não passou pela prova de fogo, não tem bagagem, então não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender. É natural que depois de… Estou nessa vida há 70 anos. Aí já sobrevivi com a minha geração. Já trabalhei muito com Nathalia, Lima… Nunca pensei em chegar a essa idade. Quando eu era nova, 88 parecia ser igual a ter mil anos de vida”.
“Se quer ser ator de TV, não perca tempo no teatro” 
“Os mais jovens vêm pra essa carreira pra brilhar. Mas quando comecei não tinha TV dessa forma. Hoje em dia está muito dividido. Você pode querer fazer teatro, cinema e TV, tudo junto, mas sou de uma época em que o grande sonho era o palco. Hoje querem ser famosos. Antigamente, quando eu ia dar palestra pra jovem, falava mais de teatro que de TV. Hoje em dia não. Hoje eu digo: se quer ser ator de TV, não perca tempo no teatro. O teatro é lento, vai exigir anos de entrega. TV, não. TV é eletrônica. Se você não acertar, repete. A hora que você fizer quase bom, se tá na hora de fechar o capítulo, para ali. Não tem nada a ver com o mundo artesanal do teatro”.
“Se uma atriz jovem contracenando comigo precisar, eu espero pingarem a lágrima”
“Pode ser bem sucedido mesmo sem talento. O processo eletrônico forja o que quiser em cima do ser humano pra resultar no caminho que aquela personagem e aquela novela exigem. Se não tem lágrima, para e pinga a gota no olho. Não precisa de dois meses de ensaio. E não digo como algo inferior porque não sou ninguém pra julgar. É um processo de avanço dentro de uma ambição tecnológica. Tenho paciência, sim: se uma atriz jovem contracenando comigo precisar, eu espero pingarem a lágrima para gravar. Tenho que entender. Mas no palco a plateia não espera. Certamente vai vaiar. E o teatro não vai morrer nunca. De alguma forma, vai sobreviver”.
“É a missão dela fazer o bem. É também uma condenação”
Pra não dizer que a gente não falou da Mercedes de “O Outro Lado do Paraíso”… Sobre comparações com seu papel em outra novela, “Riacho Doce”, ela disse: “Em ‘Riacho Doce’, a personagem era poderosa, ativista dentro do misticismo dela. A Mercedes, não. Ela é uma sombra, já está do outro lado. É frágil. As vozes deixam ela acordada. Tem que fazer o que as vozes mandam, que é socorrer o próximo. É a missão dela fazer o bem. É também uma condenação. Está aqui na Terra pra isso”. Como é a fé da Fernanda? “Não sou fanática, mas tenho meu lado místico. Só não ouço vozes nem tenho nenhum privilégio de mediunidade. Eu duvido, mas Santo Agostinho diz que se você duvida, já crê. Acho essa frase muito confortadora”. (por Michelle Licory)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Carta de Palocci - 26/9/2017

"Até quando vamos fingir na auto-proclamação do "homem mais honesto do país" enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do instituto (!!) são atribuídos à Dona Marisa?"

"Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?"

Nada como um petista histórico jogando no ventilador toda a merda que presenciou e de que foi artífice nestes últimos anos. Com sua confissão Palocci destrói a pauladas o mito de Lula e do lulopetismo, cuja defesa continua sendo feita pelos idiotas.

Aquela porcaria que se encontra hoje na presidência do PT mugiu uma resposta. Não cabe comentá-la. À uma privada usada não se dá a palavra; se dá a DESCARGA.

Lula, acabou.




(Fotos em alta resolução)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Entrevista de Janaína Paschoal à Folha - 23/05/2017

Autora de impeachment de Dilma se decepciona com Aécio e rejeita FHC



ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
DE SÃO PAULO
23/05/2017 02h00

Em agosto, a advogada Janaina Paschoal, 42, caiu no choro e foi consolada por um abraço de Aécio Neves (PSDB-MG). Coautora do pedido de impeachment contra Dilma Rousseff, acabara de defender sua destituição e pedir na tribuna do Senado que a petista a desculpasse. "Peço que ela, um dia, entenda que eu fiz isso também pensando nos netos dela."

Na semana passada, registrou uma "profunda tristeza" em rede social. "Não por mim, mas por Tancredo Neves, entendo que seu neto não tem mais condições de compor o Senado." O mesmo Aécio que a embalou nove meses antes acabou pego num áudio comprometedor, virou réu e foi afastado do cargo pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Em entrevista à Folha, a professora de direito penal da USP defende a renúncia de Michel Temer como a saída "menos dolorida" e diz que, para substitui-lo, é "contra qualquer ideia de colocar FHC", que "só faz oposição de fachada".
*
A sra. defendeu a renúncia do presidente. Isso ele já disse que não vai acontecer. Qual seria a melhor saída para a crise política então?

Janaina Paschoal - A renúncia é menos dolorida. Além dela e do impeachment, há os caminhos do Tribunal Superior Eleitoral [cassação da chapa] e do próprio STF.

Assinaria um pedido de impeachment contra Temer?

Com relação a Dilma, ninguém teria coragem para enfrentá-la, pois o PT domina a imprensa e as universidades. Por isso corri tantos riscos. Com relação a Temer, a OAB já tomou a dianteira [de pedir a destituição], e eu apoiei. Não precisa que eu assine.

A sra. participou de manifestações associadas à direita em 2016. Se hoje há uma pauta convergente, o "fora, Temer", por que é tão difícil unir os dois polos ideológicos?

Os manifestantes [da esquerda] de agora não querem apenas "fora, Temer", eles querem "volta, Lula". Não vou ajudar. Quero que todos os criminosos sejam responsabilizados, Lula inclusive.

A sra. diz que não concorda com eleições diretas, pois seria uma forma de Lula poder concorrer antes de eventuais condenações que impossibilitam sua candidatura. É justo tratar uma "Diretas-Já 2" como estratégia de um partido, se em abril 85% da população apoiava a ideia?

Na verdade, não sou contra diretas só por causa do Lula. Eu sou contra diretas porque a Constituição não prevê. O que eu ponderei foi o fato de os petistas não estarem pedindo "fora, Temer" pelo Brasil, mas sim pelo PT, pois eles não reconhecem os crimes de Lula e Dilma.

Se Temer cair, quais seriam bons nomes para o Planalto?

Sou contra qualquer ideia de colocar FHC. Ele sempre defendeu Lula e Dilma. Nunca apoiou o impeachment. A oposição dele é de fachada. Desses nomes [que circulam como potenciais candidatos], só apoiaria Cármen Lúcia [presidente do STF].

Teme que esse cenário de terra arrasada na política, após um impeachment e a recente crise com Temer, fortaleça posições extremistas no Brasil?

Não, temos que limpar! Não podemos nos acovardar em nome de uma estabilidade fictícia. Esse pessoal tem que aprender que a lei também é para eles.

Há na sociedade apreço por nomes do Judiciário. Sergio Moro e Joaquim Barbosa têm boa aprovação entre eleitores. Cogitaria carreira política?

Não tenho vontade de entrar em partido. Não está nos meus planos, prefiro ajudar a criar bons quadros. Apesar de, tristemente, ter que reconhecer que anda difícil.

Em 2016, a sra. chorou no Senado, ao discursar a favor do impeachment de Dilma, e foi consolada por Aécio. No domingo (21), disse que não adiantava "colar minha foto com Aécio". Como classifica sua relação com o tucano?

Acho que falei com o senador Aécio três vezes na vida. Não tinha nenhuma proximidade com ele. Votei nele apenas no segundo turno em 2014. No primeiro, votei em Marina. Sempre tive muito carinho por Tancredo, pois ele representava o sonho da democratização. O que quis dizer foi que eu amo o Brasil, e os petistas amam o PT.

Petistas vêm defendendo que as ações que atingiram Temer e Aécio só deram certo porque não saíram da vara judicial de Sergio Moro, e sim da Procuradoria-Geral da República.

Acho injusta a crítica a Moro, pois Aécio e Temer têm foro privilegiado, então ao poderiam ser alcançados pelo Supremo mesmo.

A sra. defende pegar "a dupla caipira", os irmãos delatores Joesley e Wesley Batista, com o "insider trading". Como seria isso?

"Insider trading" é um crime ainda pouco conhecido. A banca de doutorado que compus hoje [segunda, 22] trata justamente sobre os crimes contra mercado de capitais. Eles usaram informações privilegiadas depois do acordo [de delação premiada]. O crime posterior não é alcançado pelo acordo. Entendo que podem e devem ser responsabilizadas por isso.

Em 2016, a sra. declarou que o Brasil "não é a República da cobra" e que "a jararaca está viva", num ataque ao ex-presidente Lula. Por que acha que esse discurso foi tão polêmico?
Porque as pessoas têm medo da verdade. Sabe, pode parecer romântico e até pueril, mas eu realmente acredito que este país merece uma chance. E gostaria que todos os homens e mulheres que têm poder pensasse nos que passaram e nos que virão. O Brasil não pode continuar sendo uma terra a ser explorada. Precisa ser cultivada. Tenho sofrido muito mesmo vendo tanto desdém. Mas nós não podemos desistir.

No Twitter, a sra. indagou o que haveria "por trás da terrível perseguição que sofri". Que perseguição seria essa e da parte de quem?

As falsas acusações são constantes –de que eu sou golpista etc. Durante o processo [de impeachment], a defesa de Dilma passou de todos os limites, dizendo que eu teria recebido, quando eu estava pagando todas as despesas. Fizeram um grupo de choque formado por senadores e advogados. José Eduardo Cardozo [ex-ministro da Justiça] chegou a dizer que eu tirei uma página de um documento. Provei que era mentira, e ele não pediu desculpas. Mandaram trogloditas ligados aos movimentos deles me agredir no aeroporto. A perseguição foi terrível, mas não gosto de vitimizar. Esse papel é dos petistas.

A sra. virou alvo de piadas na internet ao afirmar que prometeu a Tancredo "que olharia pelo país". O site Sensacionalista até brincou: "Janaina promete liberar áudio de conversa que teve com Tancredo no jardim de infância".

Quanto a ridicularizar o opositor, isso é típico de quem quer ganhar um debate sem ter razão. Acredito no espírito e respeito muito os mortos, minha promessa a Tancredo não foi em vida. Foi à alma de Tancredo. Como sempre penso em meu avô quando luto por Justiça. O materialismo só faz as pessoas verem o dinheiro. Eu prezo a história. Aécio jogou lama em um herói nacional. É imperdoável.

A sra. sempre usava a mesma pulseira azul em 2016. Era uma espécie de amuleto?

Procurei usá-la o processo inteiro. Também não troquei o brinco. Não vesti marrom. Nas vezes em que vesti, as coisas deram muito errado. Deve ser coincidência, mas prefiro evitar em situação difíceis. Li a Bíblia e os salmos com frequência. Guardei todos os santos e orações que recebi... Numa briga desse tamanho, toda proteção é bem-vinda.

Ainda usa a pulseira?

Às vezes, gosto de azul.


terça-feira, 9 de maio de 2017

"Direita x Esquerda", por Ricardo Rangel

Meus caros,
já era hora desse pensador admirável que é Ricardo Rangel ter um texto  de tantos com os quais vêm brindando nossa inteligência, nos últimos anos  aqui no blog. Tenho por ele o máximo respeito e até mesmo quando discordamos, aprendo com ele.

O texto a seguir é uma pérola sobre as incoerências e incongruências do irritante binômio "direita x esquerda" no qual se transformou a política não só no Brasil, mas no mundo todo.

Bernardo
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"A herança maldita do PT", por Bolívar Lamounier

Bolívar Lamounier
A era lulopetista feriu a democracia brasileira muito mais profundamente do que se tem em geral admitido. Certos aspectos de seu triste legado estão aí bem à mostra: a corrupção sistêmica, cuja radioatividade está longe de terminar, e as insanidades econômicas do governo Dilma, que elevou para mais de doze milhões o número de desempregados.
Um dos piores estragos, do qual não nos livraremos tão cedo, foi, porém, a conspurcação da linguagem da vida pública. Aqui me refiro não apenas ao culto sistemático da mentira e à falsificação ideológica da história, mas também ao uso político de aberrações conceituais, essas não raro endossadas por “companheiros” que se autointitulam intelectuais. Desse tipo de falcatrua, o melhor exemplo é a visão de uma sociedade dividida entre “nós” (o povo, os bons, o bem) e “eles” (as “elites”, o mal, a ganância).
Desde a sua fundação há trinta e seis anos, o PT não se cansa de apresentar a história brasileira como obra de uma elite pequena, coesa, gananciosa, em permanente conspiração contra os trabalhadores e os pobres. Um País de verdade, onde todos tenham oportunidades, só a partir de Lula.
Como se vê, a pedra de toque desse discurso é a noção de elite. Ora, uma elite aristocrática, fruto de uma nobreza hereditária, é evidente que o Brasil não possui. Elite, no Brasil, é o agregado constituído pelos ocupantes das posições mais altas em diferentes hierarquias: os políticos eletivos, alta burocracia civil e militar, os empresários mais importantes, o alto clero das diferentes determinações, os intelectuais e cientistas, e assim por diante. Um agrupamento abstrato, meramente estatístico.
Assim compreendida, compondo-se de milhares de indivíduos, a elite é obviamente incapaz de conspirar, e aqui chegamos à ironia das ironias. O grande exemplo de País governado por uma elite conspiratória foi ele mesmo, o PT, que nos ofereceu. Ao se associaram umbilicalmente ao cartel das empreiteiras, Lula & Cia conspiraram o quanto puderam, com requintes de profissionalismo. Se foram finalmente pilhados, isso se explica por duas razões.
Um, o tamanho do animal que pretenderam digerir: a Petrobrás. Outro, a enorme extensão de sua prepotência e de seu sentimento de impunidade.
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